| Partido dos Trabalhadores Liderança na Câmara dos Deputados Assessoria Técnica |
Nação Quinhentista
José Carlos Pereira Peliano
Assessor Técnico da Liderança
Cena 1: o comentarista econômico se acerca do microfone dá uma de autoridade econômica e deita falação sobre a necessidade de diferenciação do salário mínimo por regiões. Depois vem a autoridade econômica se veste de comentarista econômico e se carrega de palavras para dizer a mesma coisa. O cenário de fundo é o maior país em extensão da América do Sul e o de frente é qualquer microfone disponível pela imprensa falada ou escrita em qualquer dia a qualquer hora em qualquer corredor e sob qualquer pretexto.
Cena 2: o mesmo comentarista econômico do parágrafo anterior toma de novo do microfone já se achando autoridade econômica e justifica por a mais b porque a taxa de juros básica do Banco Central, aquela que sinaliza os níveis que as demais taxas de juros devem tomar como referência no mercado, tem que ser a mesma para regular os negócios bancários que se realizam tanto em Diamantina quanto na avenida Paulista. A autoridade econômica que por acaso estava na mesma solenidade pega o microfone e desanda a garantir seu futuro emprego de comentarista econômico tecendo considerações sobre as razões pelas quais em Diamantina a taxa de juros não pode ser diferente daquela arbitrada na avenida Paulista.
Cena 3: o ouvinte ou o telespectador sacode a cabeça, passa a mão nos olhos, ajeita os cabelos e se pergunta se ele entendeu bem o que aqueles dublês de comentaristas e autoridades econômicas estavam tentando explicar. Desolado o pobre brasileiro acaba tendo de se conformar com a reprise do festival de besteiras que assola o país, revivendo Stanilslaw Ponte Preta. Vai à geladeira e fica em dúvida se toma uma brahma, uma antártica ou uma kaiser e acaba indo abrir uma garrafinha de água de coco ao invés de ter à mão o próprio e genuíno coco da Bahia.
A dúvida do ouvinte ou do telespectador é a seguinte: como a remuneração de referência para o trabalho deve ser diferenciada por estados e municípios e a remuneração básica do capital financeiro não? O comentarista que é autoridade econômica e a autoridade econômica que é comentarista não vivem dizendo que na era da globalização a norma é a padronização de produtos, serviços, qualidade, eficiência, produtividade e retornos físicos e financeiros? Não foi por conta dessa lógica que o Brasil ingressou no mundo da modernidade e abriu seu mercado, patrimônio e produção para os capitais estrangeiros?
Não é o mercado o mecanismo regulador todo poderoso que funciona para o capital e seus carregadores de pasta de Diamantina à avenida Paulista? E que deveria também sustentar a equalização dos níveis de salário mínimo pago em todos os estados e municípios brasileiros se, além do mais, todos os outros bens, serviços, canais de rádio e televisão, comentaristas e autoridades econômicas à disposição de todos os brasileiros são os mesmos? Por que então a exceção a regra somente e para a parte mais fraca: os trabalhadores, aposentados e pensionistas que vivem com o salário mínimo? Por que o neoliberalismo não funciona para a parte do mercado que não tem representantes assegurando o funcionamento do mercado como os comentaristas econômicos, as autoridades econômicas e os demais lobistas de plantão?
É exatamente porque o neoliberalismo é para ingleses (e americanos) verem. Para que o mercado funcione como quer a doutrina é necessário que exista um exército de comentaristas, autoridades, lobistas e agregados que garantam que ele realmente funcione. É a contradição em termos: a liberdade de funcionamento do mercado requer a regulação explícita (ou disfarçada) do próprio mercado. Perdem aqueles que não têm condições econômicas, financeiras ou sociais de se postarem como defensores da doutrina. Leia-se trabalhadores, aposentados, pensionistas e o grande contingente de pobres, miseráveis, meninos de rua, prostitutas, drogados, catadores de lixo.
Quem consegue chegar perto dos defensores da doutrina se dá bem, recebe a garantia de que a lei defende as suas instituições, os seus interesses, os seus empreendimentos. Quem está a margem, é desempregado, é retirante, é professora municipal, é varredor de rua, é mão-de-obra terceirizada, é peão de obra, todos os que dependem do salário mínimo, esses têm que se ver com o mercado, têm que lutar entre si para conseguir o prêmio da qualidade, da eficiência, da produtividade, do troféu do neoliberalismo.
O pior é que a nação Brasil, logo quando completa meio milênio de existência, permanece colônia de si mesma. Deixa-se capitular diante das nações mais desenvolvidas, sem resistência ou dignidade, favorecendo ao capital e sua procissão de seguidores. Enquanto o povo, o tão desgastado povo, tanto em palavra levada ao desuso quanto em gente levada ao descaso, permanece ostentando o título de uma das maiores desigualdades vivas de renda de todos os tempos. Salvem o neoliberalismo, os comentaristas econômicos e as autoridades econômicas!