Vitória de Pirro em Doha

 

  1. O governo brasileiro vem apregoando que o nosso país, liderando as nações em desenvolvimento em Doha, obteve "grandes vitórias" na OMC. Fala-se, principalmente, na declaração sobre patentes e saúde pública e no suposto compromisso de se extinguir os subsídios agrícolas na próxima rodada de negociações.
  2. Pois bem, antes de tudo, é necessário levar em consideração a real dimensão do que foi discutido e aprovado em Doha. O principal documento aprovado na conferência da OMC no Catar foi a "Declaração Ministerial". Esta declaração aprova um "programa de trabalho" para as negociações que se desenvolverão nos próximos anos. O programa de trabalho estipula os temas que serão discutidos e o sentidos geral das negociações. Trata-se, evidentemente, de diretrizes básicas que de forma alguma representam ou asseguram os resultados finais das negociações.
  3. Na realidade, as verdadeiras negociações, as que redundarão em novos acordos ou modificações dos já existentes, se darão a partir do próximo ano. Tais negociações, normalmente difíceis e demoradas, deverão ocorrer em Genebra, a portas fechadas, entre equipes técnicas com diversos níveis de preparo e conhecimento. Obviamente, nestes encontros os países desenvolvidos levam imensa vantagem sobre as nações em desenvolvimento, pois contam com corpo técnico numeroso, tematicamente especializado e extremamente bem preparado. Tal foi o que aconteceu durante a Rodada Uruguai, que começou com declarações favoráveis aos interesses dos países em desenvolvimento, mas que resultou em acordos desequilibrados e francamente benéficos aos interesses das nações industrializadas.
  4. Mas mesmo a Declaração Ministerial aprovada em Doha, não assegura, de forma alguma, os interesses dos países em desenvolvimento.
  5. Em primeiro lugar, o escopo das novas negociações obedece ao que fora apresentado pelas nações industrializadas, particularmente pela União Européia. Os países em desenvolvimento queriam que as negociações se restringissem às "pendências" da Rodada Uruguai, basicamente agricultura, têxteis e antidumping. A União Européia, apoiada pelos EUA e Japão, queria a introdução de "novos temas", como meio ambiente, concorrência, compras governamentais, aprofundamento da questão dos investimentos, etc., de forma a compensar quaisquer concessões na área da agricultura.
  6. Ora, o programa de trabalho definido em Doha prevê negociações em relação aos seguintes temas:
  1. Assim sendo, o escopo das negociações ficou exatamente como a União Européia queria, amplo e diversificado. Isto permitirá grande margem de manobra para arrancar novas concessões dos países em desenvolvimento.
  2. Em segundo lugar, e isto é extremamente grave, o parágrafo 47 da declaração de Doha, embora preveja o princípio do single undertaking ( só fechar os acordos quando tudo estiver negociado), estipula que os acordos que forem fechados em etapas anteriores ao final das negociações poderão ser implementados em "bases provisórias ou definitivas". Com isto, os países desenvolvidos, que têm um poder de pressão muito maior, poderão acelerar as negociações naqueles temas do seu interesse e fechar e implementar acordos sobre tais temas. Ao contrário, as negociações de temas de interesse dos países em desenvolvimento (agricultura, por exemplo) poderão se arrastar durante anos. Saliente-se que esta estratégia ( a estratégia da early harvest- "colheita precoce") foi adotada com grande êxito ( para os países desenvolvidos) na Rodada Uruguai.
  3. Em terceiro lugar, a Declaração Ministerial de Doha não assegura, como diz o governo brasileiro, a extinção dos subsídios à exportação de produtos agrícolas. A declaração fala em "reduções, com vista à extinção, proibição (phase out) de todas as formas de subsídios à exportação". Contudo, a expressão "com vista à extinção" (with a view to phasing-out , no original) de forma alguma significa compromisso com uma proibição total de tais subsídios. Tanto é assim que o Comissário da União Européia para a Agricultura, Sr. Franz Fischler, comentou que só aceitou a introdução de tal assunto na declaração porque lhe foi assegurado que o único compromisso efetivo seria com "reduções". O termo phasing-out (proibição, extinção) é mera indicação de "direção, esperança, ambição", afirmou o comissário europeu. O que significa isto na prática? Significa que a União Européia, bem como os EUA e o Japão, estão dispostos a negociar pequenas reduções em sua política de subsídios, desde que tais concessões sejam compensadas (provavelmente mais do que compensadas) em outras áreas, como meio ambiente, investimentos, serviços, compras governamentais, etc. Portanto, a realpolitk das negociações comerciais está muito distante das afirmações ingênuas acerca da "vitória brasileira".

10-Em quarto lugar, os países desenvolvidos arrancaram grandes concessões das nações em desenvolvimento em outros importantes temas, quais sejam:

 

11-Por conseguinte, o próprio texto da Declaração Ministerial de Doha demonstra que as maiores concessões foram feitas pelo países em desenvolvimento, e não pelas nações industrializadas. No entanto, as concessões efetivas se darão somente nas futuras negociações, tal como já destacamos.

12-No que tange à "Declaração sobre o Acordo TRIPS e a Saúde Pública", o progresso obtido diz respeito apenas à interpretação do acordo sobre propriedade intelectual e não à introdução de nova cláusula vinculante. Na realidade, a pressão maior para conciliar a propriedade intelectual com a saúde pública veio das ONGs dos países desenvolvidos, e não dos governos dos países em desenvolvimento. Note-se que os EUA já tinham desistido de apresentar queixa contra o Brasil na OMC, em virtude da campanha de várias ONGs norte-americanas. Ademais, as principais companhias farmacêuticas estavam temerosas de terem a sua imagem prejudicada, em função de atitude intransigente em relação às necessidades dos doentes do terceiro mundo.

13-Por último, é preciso sublinhar que o país em desenvolvimento que mais se destacou na defesa dos interesses do terceiro mundo em Doha foi a Índia, e não o Brasil.

 

 

 

Marcelo Zero, em 18/11/2001